quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Amorizade

Este é um texto sobre pessoas que se apaixonam por amigos. Sim. Um texto sobre essa tragédia tão popular dos seres humanos que são suficientemente
estúpidos para atravessar “aquela linha”.
Tu és o melhor companheiro. O compincha de horas mortas em que o tema de conversa é um qualquer tipo de transtorno emocional ou a coisa mais parva que lhe passar pela cabeça. És um ser assexuado, a pessoa a quem pode pedir mimos se estiver a atravessar um período de carência afectiva. Tu sabes do melhor e do pior, já viste lágrimas, já viste sorrisos, aturaste bebedeiras e maus humores. Tu estás à distância de um telefonema, ou de um “oi” no MSN, mesmo que estejas offline. E a parte má é isto tudo saber-te a pouco e não seres capaz de dizer nada! Mas foi assim que escolheste viver… Enfim, és indubitavelmente estúpido!
Amor: desejo e ódio, prazer e dor, yin e yang. O amor é o único fenómeno capaz de conciliar antónimos! E se queremos realmente cair na sua teia, há umas coisinhas das quais temos mesmo de nos lembrar: Um. Valoriza-te sempre e nunca te esqueças de ti mesmo. Dois. Sê generoso na relação. Três. Esqueceres-te do primeiro ponto é inevitável.
As pessoas que se apaixonam por amigos, então, parecem ser as que mais interiorizam o número três. Caso contrário, porque é que seriam tão masoquistas? Aliás, elas são tão masoquistas que até inventaram um número quatro: se a pessoa de quem gostas é um amigo teu, lê outra vez o número dois.
Nestas histórias dos amigos há algumas que até correm bem: as dos filmes! Em Hollywood há sempre um indivíduo muito corajoso que tem tomates suficientes para enfrentar a possibilidade de arruinar uma amizade. Um indivíduo que não aguenta mais lutar contra aquilo que sente e que por isso mesmo resolve pôr em risco uma das melhores relações que já teve, cujo único defeito é não ser amorosa.
Mas e na vida real? Porque é que não nos atrevemos, porque é que não lutamos por algo que até podia ser maior? Eu posso até nem ser grande especialista nestas coisas, mas acho que não é asneira nenhuma dizer que a única razão é medo. Simplesmente medo. E não é medo de amar, não…É medo por amar! Quando alguém se apaixona por um amigo examina todos os pormenores, pensa todas as atitudes, mede todos os riscos. Porque tem perfeita consciência de que, a partir do momento em que o olhar sobre o outro se modifica, começa a lidar com uma situação mais frágil do que um fino copo de cristal. É por isso que se tenta distrair com pessoas que vão aparecendo e a quem até acha alguma piada. É por isso que tenta, às vezes desesperadamente, entregar-se a outros prazeres. Quer conhecer gente nova. Quer marcar encontros. Até chega a querer que o amigo arranje alguém! Quer, porque pensa que aquilo que sente é proibido. E eu até percebo que isso aconteça… No fundo, quem o faz só deseja pôr em segurança aquilo que tem de mais precioso. Uns chamam-lhe covardia. Outros dizem que revela força. Há quem diga, até, que é uma atitude nobre! Mas eu acho que, acima de tudo, é Amizade.

(Mas e se valer a pena atravessar “aquela linha”?)

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Bate-me à porta

Às vezes apetece-me gritar-te ao ouvido palavras sussurradas quase que imperceptivelmente…
Gritar para ter a certeza de que entendes.
Sussurrar porque não quero que mais alguém as ouça.
Queria dizer-te em voz firme e grave e em tom suave e meigo…
“Bate-me à porta”.
Bate-me à porta outra vez e eu esqueço.
Bate-me à porta outra vez e eu perdoo.
Bate-me à porta outra vez que eu abro.
E odeio-me por isso.
Odeio que, com um simples bater à porta, mesmo que repetido ao ritmo do desespero, eu abrisse, sem sorriso nos lábios, mas com sorriso no coração.
E odeio-me por isso…
Mas odeio-te ainda mais porque sei que não voltas a bater.
Talvez porque não te interessa…
Prefiro pensar que é por que te falta a coragem…
Sim, essa falta-te…
Porque, na verdade, tu nunca me bateste à porta.
Estava mais para aquela brincadeira de toca e foge que os miúdos jogam quando o tempo, para eles, parece não ter fim.

sábado, 7 de Novembro de 2009

Fixação

Já te vi.
Ar de quem acabou de acordar, cabelo revolto e desalinhado.
Nó da gravata mal dado, punhos da camisa mal dobrados, olhar de quem ainda devia estar na cama.
Viro-me na direcção contrária, evitando por breves momentos um encontro inevitável.
Sinto o teu olhar preso na minha nuca. Ou então é o meu pensamento que está preso em ti.
Respiro fundo e dou dois passos. Não me recordo de dar mais nenhum, porque, sem mais nem menos, voltaste a entrar no meu ângulo de visão.
Voltei a fingir que não te vi.
Visto a pele de uma pessoa demasiado ocupada para te notar. Mas já te vi. Foi a primeira coisa que vi quando aqui cheguei. E nem é assim tão estranho, já que és a primeira coisa que o meu olhar procura.
Sinto-te a passar por mim, mas pareço alheada a tudo. Pergunto-me se também te sentes assim. Será que se arrepiam os pêlos dos teus braços ou que te atravessa um frio na espinha?
Controlo a entrada e a saída do ar.
Naquele segundo, tudo o resto deixa de existir.
Contem-me algo bom, e eu rio alto, para que me notes.
Contem-me algo mau, e eu solto uma qualquer interjeição adequada num volume inadequado, também para que me notes,
Contem-me algo assim-assim, e arranjarei modo de o tornar suficientemente entusiasmante ao ponto de me permitir a uma qualquer reacção exagerada, apenas para que me notes.
Mas passaste e não fiz nada porque, num qualquer acesso de lucidez, mantive-me amarrada pela história que me precede.
Mas de nada servem, os segundos de raciocínio lógico. Logo depois tenho de arranjar forma de passar por ti outra vez. Pelo menos até ter a certeza de que fui notada…
E de repente vês-me… Mas acho que já me tinhas visto.
Era só o teu joguinho falso.
O ar de quem se está a cagar, o sorriso malandro que te chega aos olhos, a inacessibilidade tão acessível que te envolve…
E numa tentativa de me agarrar à realidade prendo a mão na outra, no fundo do meu bolso.
E decido:
“A partir de agora, finjo que nunca te vi.”

Alguém devia ter-me dito que não resultava...

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Veneno

Quero beber sofregamente
Desse líquido que me encostas aos lábios.
Tenho-os entreabertos
Como que implorando
Por um pouco dessa essência
Que só consigo encontrar em ti.

Queima.
Queima-me a língua, a garganta e todo o corpo.
Esvazia-me a cabeça de toda a lógica.
Acelera-me o coração.
E queima.
Queima-me os lábios, a garganta e até a alma.

Vicia.
De mal em mal,
Vicia enquanto induz morte lenta.
Mata a sensatez e aniquila a prudência.
Deixa tudo entregue ao instinto de um animal selvagem que eu não sabia morar aqui.
Vicia…

Bebo sofregamente
Desse líquido que me encostas aos lábios.
Mas já não chega…
Quero mergulhar nessa essência,
Quero tê-la para mim!

Quero mais desse veneno, que só tu fazes assim…

domingo, 18 de Outubro de 2009

O manjerico

Comprei um manjerico. Folhas verdes e viçosas e cheirinho agradável.
– Olha que o deixas morrer – avisou a minha mãe.
Fiz ouvidos moucos. Tinha um lindo manjerico e estava disposta a cuidar dele, a regá-lo religiosamente, a tirá-lo do Sol nas horas mais agressivas e, porque não, falar-lhe baixinho de vez em quando, assim às escondidas, para que não me julgassem louca por conversar com as plantas.
E assim foi.
Por dias e dias mantive-me fiel à minha nova tarefa.
Porém, houve um dia em que surgiu um simpático convite para uma noite passada a ver filmes e a comer pipocas. Foi a primeira vez em que o manjerico ficou por regar.
“Nada grave”, pensei. Voltaria à rotina, sem qualquer problema!
Mas dois dias depois, uma festa. Deitar tarde, acordar tarde, dia passado meio a dormir, e mais um dia em que o manjerico ficou esquecido em cima do balcão.
Não me interpretem mal, continuava a admirá-lo e a sentir por ele uma ternura imensa, mas havia sempre qualquer coisa que se intrometia pelo meio. E foi assim que, ao longo dos dias, os meus cuidados para com a plantinha passaram de regulares a irregulares e de irregulares a raros.
E um dia, o manjerico morreu.
Assim, sem mais nem menos, quase sem eu dar conta.
Eu continuava a querer tê-lo, lindo e viçoso, mas tinha deixado que morresse nas minhas mãos.
Por puro desleixo…

E há dias em que me sinto como uma pequena planta com sede, à espera de ser regada.

sábado, 12 de Setembro de 2009

Razões

Tenho a péssima tendência para escrever apenas quando tenho dias maus ou em que tenho pouco para fazer.
Ora, há muito tempo que nem uma coisa nem outra acontecem, talvez por isso o blog tenha andado parado… Isto não quer dizer que não escreva, não… Escrevo para mim, um pouco todos os dias. Há assuntos que não são adequados a figurar na internet!
Mas pensei que talvez devesse deixar aqui o porquê da falta de dias maus. Até porque acho que falta de tempo é desculpa de mau pagador.
Era quinta-feira, dia nove de Abril. Não me lembro ao certo daquilo que levava vestido, mas tenho a certeza de que experimentei o armário inteiro antes de me decidir. Em pouco mais de três minutos pus-me no café, onde ele já esperava. Sentámo-nos na mesa do canto e pedimos os dois uma imperial… A dele era green. A minha foi à borla, cortesia do patrão… E acabámos por trocar.
Era a primeira vez que estávamos só os dois, mas não sei se fazia muita diferença: mesmo quando éramos muitos, eu e ele acabávamos numa qualquer prosa privada, isolados do resto do mundo.
A conversa fluiu como água, mas sei lá aquilo que dissemos! É engraçado como me lembro tão bem e ao mesmo tempo tão mal daquela noite. Acho que abordámos sobretudo banalidades. Recordo-me da dificuldade em prender os olhos no olhar dele, porque parecia que me queria ver a alma. E isso era inesperadamente bom… Eu tinha medo de coisas demasiado boas.
O ar estava leve e a minha cabeça a andar à roda, atordoada pela falta repentina de algo que me mantivesse os pés no chão. Os meus olhos já brilhavam, as minhas pernas já estremeciam e a minha pele já gritava pelo toque dele. Se calhar foi por isso que, sei lá como, a minha mão deslizou-lhe pela borda das calças e procurou a dele dentro do bolso. Nesse dia cheguei a casa com um sorriso parvo nos lábios e não havia nada neste mundo capaz de me fazer dormir enquanto o calor das nossas mãos entrelaçadas ainda me estivesse cravado na memória.
E com isto tudo, já era dia dez.

segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Como uma boneca

A Rute tinha uma colecção invejável de bonecas. Aliás, de bonecas não, de Barbies. Estavam sempre perfeitamente alinhadas umas ao lado das outras, perfeitamente vestidas e perfeitamente penteadas; todas em fila na prateleira comprida que se estendia ao longo da cama, uns bons metros mais acima. Eu adorava aquele admirável conjunto de Barbies do qual faziam parte tanto as mais populares como as mais raras. Havia a Médica com o vestido azul colado ao corpo por baixo da bata branca, a Ginasta com as suas articulações que permitiam acrobacias, a Marés Vivas no lendário fato-de-banho vermelho e a veterinária com o cabelo platinado que quase lhe chegava aos pés.
Eu nunca tive assim tantas bonecas. Tinha algumas, sim, e brincava imenso com elas. Mas, não sei, nunca me ofereceram muitas e eu, apesar de as pedir pelo Natal, rapidamente esquecia e dedicava o tempo livre depois da escola a ler as Aventuras ou o Clube das Chaves.
Mas em casa da Rute era diferente. Eu delirava com a visão de todas aquelas Barbies ali expostas, qual montra de loja de brinquedos! Olhava para elas e ganhavam forma na minha cabeça mil histórias e enredos… Mas nunca passaram de imaginação. Eram histórias que nem ousava contar à Rute, porque ela não me deixava chegar com um se quer às bonecas. Serviam só para ser vistas, nunca para ser tocadas! E eu, que imaginava a Médica a emprestar o vestido azul à Marés Vivas (que estava tão farta da roupa pouco elegante de praia), sentia-me amargurada por ver ali tanto potencial à espera de ser explorado.
Era tal a mania da Rute, que nem sapatos as Barbies tinham. Ela tirava-os a todas! Metia-os, impecavelmente alinhados, dentro de uma pequena caixa que guardava religiosamente na gaveta mais alta da estante que chegava ao tecto. E eu ficava a imaginar como seria se a Rute alguma vez visse as minhas bonecas.
As minhas poucas Barbies eram todas muito amigas e generosas, trocando imensa roupa entre si. Não eram etnocêntricas, pois recebiam no seu restrito grupo algumas Nancys e Sabrinas. Iam imensas vezes ao cabeleireiro, mesmo que este não prestasse e acabasse por cortar franjas que nunca voltariam a crescer (a minha mãe teve de me esconder as tesouras). Não tinham nem carro, nem casa, nem mobília. Aliás, até tinham, mas tudo improvisado com caixas de fósforo, frascos de perfume e tudo o mais que estivesse à mão! A única coisa que tinham em comum com as Barbies da Rute, era mesmo a falta de sapatos: depois de muito os usar, eu perdia todos.

Hoje em dia, nas mãos dele, eu sou uma espécie de Barbie deixada na prateleira e que só existe para ser contemplada. Parece que tem medo de me partir, de me estragar, de que eu perca algum traço de mim, que faça parte da minha essência; a tal pureza, a tal transparência, a tal verdade. Confunde os meus gestos delicados com a fragilidade extrema de uma flor, mesmo que nem ela seja tão frágil assim. Tal e qual como se eu estivesse lá no alto do Olimpo, longe do toque ávido de mãos mais inquietas; demasiado perfeita para ser incomodada, demasiado bonita para ser mexida.
A graciosidade, a amabilidade, o jeito doce e meigo; tudo confundido com uma certa distância que ele julga que eu quero manter. Mas não… Eu sou mais de intimidade e de gestos estreitos, de abraços apertados e de corpos entrelaçados. Sou de respirações aceleradas e de ritmos cardíacos fortes, sou de cores quentes e de espírito livre. Sou de quem me sabe levar, de que me sabe soltar de regras básicas e medos infundados. Sou de aventura, quando me sabem guiar.


E sempre me diverti muito mais quando podia realmente brincar com as bonecas. Era isso que as tornava realmente minhas e, por isso, realmente especiais.