terça-feira, 1 de março de 2011

Eu, apaixonada, me confesso

A minha escrita é toda ela ornamentada de metáforas e de floreados. Escondem-se segredos nas curvas das letras, que eu só deixo transparecer ao de leve quando estas se juntam em palavras e, por sua vez, em frases. Levanto, assim, a ponta do véu que protege a minha alma dos olhares indiscretos de quem muito se preocupa com a vida alheia. Mas hoje cai o pano. Cai o pano e não é porque a história acaba, mas sim porque acaba de começar. Cai o pano, que era o véu e que já não tem ponta que o valha, pois já está desmaiado no chão. É hora de confessar os disparates do espírito, longe das caixas de madeira que os fiéis usavam para se esconder dos olhares dos sacerdotes, mas não dos seus ouvidos.

"Sabe bem tudo tão certo", diziam os Donna Maria, de quem tenho saudades. E aqui sabe ainda melhor. Sabe melhor porque tirei o quase ao título que a música traz. "Quase Perfeito"... E isso, só de si, já muda tudo.

Não, o meu mundo não é cor-de-rosa e os pássaros não cantam mais alto. Não, não soube desde o primeiro instante em que te vi, tampouco no segundo! E não, a palavra sempre não consta muitas vezes do meu vocabulário.

O meu mundo é colorido. Vejo-as a todas, às cores, como sempre vi. A diferença é que, agora, quando é cinzento, tu pintas de outra cor mais alegre, seja ela amarelo,laranja ou magenta! Os pássaros chilreiam no mesmo tom, mas agora eu costumo ouvir coisas - coisas bonitas - que nunca antes tinha ouvido na minha vida. E não, não soube quando te vi, mas agora sei todos os dias... Isso deve valer só por si. Quanto ao sempre... Para quê preocupar-me em dizer coisas quando as sinto visceralmente? Não... Dizê-lo era tão ridículo como afirmar veemente que um texto meu pode ser livre de floreados... Tolice!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O meu lugar favorito

Há luz. Muita luz! Uma luz quente como a do entardecer. É, portanto, aquela luz que não fere, que se suporta. Aliás, que se deseja! É luz dourada que transforma em ouro tudo aquilo em que toca. Tirando este do pôr-do-Sol, é livre de clichés… Não há pássaros que chilreiam, nem cheiro a maresia. Cheira antes a coco e a chocolate. Entranha-se de tal modo na pele que quase podia jurar que lhes sinto o gosto! Nesse sítio já fui sincera que dói e parva que irrita. Agora continuo sincera mas já pouco magoa e quando sou parva sou apenas tontinha. Digo aquilo que me vem à cabeça, sem pensar muito sobre isso. E quando dou conta só não corei porque não tenho o hábito! Nesse lugar eu não tenho pudores. Sei que sou linda e sinto-me uma princesa dos tempos modernos, dividida entre o sorriso embasbacado (mas elegante) de quem foi salva pelo príncipe e a felicidade contida de quem sabe que, hoje em dia, se viaja demasiado rápido para outro lugar. E eu não quero outro… Aqui há uma tranquilidade que não aborrece, uma adrenalina que se sente sem estarmos perto do abismo. É um local seguro onde posso encostar a cabeça e adormecer. Ao longe há uma melodia qualquer que fala de linhas que se cruzam, no tom alegre de quem fica feliz por isso.

A questão não é onde estou. A questão é como me sinto.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A Peneira

Olhou lá para fora e suspirou. Continuava a chover. O vento corria solto e fazia bater as portadas da janela que a vizinha esquecera de prender. Nas mãos tremia-lhe um pedaço de papel que ela continuava a agarrar com força. Não era pessoa de pensar em laços. Aliás, agora que pensava nisso, nem tinha a certeza de saber o que eram laços, afinal. As suas relações nunca se tinham baseado em confiança. Mais depressa tinha aprendido a proteger-se do que a ser sincera. Mais depressa tinha aprendido a fazer tudo em benefício próprio do que a ser altruísta… Era boa pessoa, mas volátil e imatura. E extremamente egoísta, tinha de admitir. Demasiado orgulhosa para ouvir berros e sermões, aquele papel, sujo e amachucado, fora o suficiente para a fazer parar e pensar. Recomeçou a leitura, desta vez já a meio.

… E depois existem as coisas que deixam de ser importantes. Por exemplo. São seis da manhã, tenho aula às onze e quero ir. Mas é mais urgente ligar o computador e deixar que os dedos deslizem sobre o teclado, tocando uma melodia que conheço de cor. O “tic tic tic” inconfundível das teclas a ser batidas irrompe pela madrugada dentro, substituindo, por um quase imperceptível ruído, o tumulto que me vai na cabeça.
A hierarquia das coisas. Mais tarde na nossa vida ficamos boquiabertos quando percebemos que, aquilo que achámos ter, um dia, relevância máxima, não passa, afinal, de uma mero instante fugaz, dos muitos que a vida tem. Se calhar ela é feita disso mesmo, de instantes fugazes, e eu não passo de uma tonta que tenta dar um sentido mais profundo a tudo aquilo que mexe. Mas que culpa tenho eu se sinto que há coisas à minha volta que nada mais são do que o simples vazio? Eu não gosto de perder tempo. A vida são dois dias, dizem, e um deles já foi ontem. E eu quero ter a certeza de que esse que me resta é passado com quem eu sei que vai fazer de tudo para que não seja um dia mau. Talvez seja uma ideologia demasiado pseudo-romântica ou até um contra-senso para quem se quer dar bem na vida. Mas nada disto quer dizer que eu não saiba dar aquela meia dúzia de sorrisos rasgados e ser linda por umas horas. E isto não faz de mim falsa. Sou apenas uma sobrevivente. No fim do dia existem os poucos que sabem que “aquele” olhar equivale a um sorriso e que acham que o meu cabelo é igualmente bonito, quer quando acordo, quer quando passo uma eternidade em frente ao espelho.
E voltando à história da peneira… Na rede ficam poucos, mas ficam os maiores. Os outros, lá em baixo, são a multidão que se acumula e que passa a fazer número quando dizemos, orgulhosos, “tenho mil amigos no facebook”. E isso não é mau. Só não é essencial.



Voltou a suspirar e olhou pela janela. Pelo menos ainda se podia esforçar por permanecer na peneira de outro alguém.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Um Bicho de Sete Cabeças

Uma rua larga. Hora do almoço. Dezenas de pessoas. Desvios e encontrões entre passos lentos e outros mais apressados. O número de possibilidades poderia ser calculado através de uma qualquer fórmula que envolvesse o tempo exacto, o local preciso e a disponibilidade mútua. A matemática nestes casos não resulta. Na verdade, é apenas puro mistério e não há ninguém que consiga entender o como ou o porquê.
Ele avança com os olhos cravados no vazio. Vai ao ritmo dos Muse, que cantam para ele e para quem passa perto, no mp3 com o volume no máximo.
Ela avança com os olhos no chão e a cabeça na Lua. Murmura baixinho as despesas da semana que já foram suficientes para dar cabo do dinheiro do mês.
Vêm em sentido contrário. Alheios à existência um do outro; alheados a tudo, na verdade! Mergulhados nas suas vidas, nas suas rotinas e conformados com a normalidade.
E passam um pelo outro exactamente no momento em que ele larga o vazio e ela desce à Terra.
É um daqueles momentos em que tudo pára. Naquele breve instante, em que os olhares se encontram, acontece alguma coisa que está para lá das descrições que os comuns mortais conseguem fazer. Só os franceses descobriram a palavra certa, não fossem eles soberanos em matéria do coração. Frisson. Algo que na verdade tem mais a ver com o estômago do que com o coração. E mete borboletas…
Afastam-se. Porque o tempo parou mas não foi para sempre.
“Tão gira! Devia parar? Perguntar o nome?”
“Calor! E se eu deixar cair o caderno, ele olha para trás?”
“Ridículo! She’s out of my league… Mas será que arrisco em olhar para trás?”
“Idiota! E se perguntar as horas, sei lá, é mais simples!”
Ele olha para trás e suspira. Ela não estava a olhar… “Esquece…!” E segue em frente.
“Não olhes, não olhes, não olhes! É uma estupidez alimentares essas contos de fada!” E segue em frente.
Vão em sentido contrário. Não esquecem o breve encontro que nunca chegou a existir. Perguntam-se como seria o mundo se tivessem sido capazes de parar e de quebrar com a rotina, com os protocolos. Mas avançam. Conformados com a normalidade.
Outro grande mistério que a matemática não consegue resolver.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Carta de Reclamação

Boa noite. Ou bom dia… Ou boa tarde, sei lá! Não sei a que horas vai receber esta minha carta, o que torna a sua escrita num dilema, logo desde o início! Mas como o tempo para si é eterno, julgo que pouca diferença deve fazer. Isso das horas é para os comuns mortais como eu, para quem cada minuto que passa significa um pé mais para dentro da cova! O Senhor… Ou Menino? Talvez deva tratá-lo por Menino. Mas é confuso, afinal de contas tem tantos anos quantos os do Adão e da Eva. A diferença é que esses morreram e o Menino (ou Senhor?) ainda vai cá andar muito tempo. O que torna a coisa tão confusa é a tal a aparência de criança de colo que todos dizem que tem. Dizem que é um bebé! Eu nunca o vi assim ao vivo, mas como pode um bebé ter tantos anos? Bem, com isto já perdi o fio à meada! Vou directa ao assunto, então.

Tanto a tenra idade como a idade muito avançada podem causar assim umas baralhações, umas perdas de memória…Ora, eu tenho notado que tem sofrido deste mal, pois se não, repare: no outro dia eu estava descansadinha a beber a minha chávena de chá, quando passa lá fora da loja um rapaz bem jeitoso. Para dizer a verdade, ele era um grande pedaço de mau caminho, perdoe-me a sinceridade. Eu, boa moça e solteira, em boa altura para casar, não me fiz rogada! Ajeitei o cabelo e dei um sorrisinho enquanto olhava assim meio a medo, na esperança de que reparasse em mim. Sabe como é, aquele olhar meio inocente, meio malandro. Enfim, lá estava eu, cheia de expectativas, quando vejo o tal rapaz a olhar para dentro da loja. Ai, quando ele se chegou à porta o meu coração bateu tanto, tanto, tanto, que eu julguei que fosse saltar para fora do peito, palavra de honra! Mas abanei assim um bocado a saia e os calores diminuíram o suficiente para que eu me conseguisse manter uma certa compostura. Aí fingi que não era comigo e deixei que o rapaz se chegasse perto. E estava mais perto, mais perto, mais perto… E depois passou recto! Recto e directo a uma sirigaita que também lá estava sentada no salão de chá. Olhe, a minha cara de surpresa deve ter sido tal, que a desaforada ainda se ficou a rir. Ela bem fingia que não se ria de mim, mas sim das coisas que o rapaz lhe contava. Porém uma mulher sabe, não me pergunte como, mas uma mulher sabe quando é que a outra está interessada. E aquela ali, apesar de ser uma sirigaita, não era excepção. Ainda vermelha que nem um tomate apressei-me a pagar a conta, nem esperei que o empregado fosse à mesa, fui logo lá eu de modo a despachar a coisa. E nisto, ele diz-me assim: “A despesa foi paga pelo senhor da mesa do fundo”. Que raio, pensei eu! Olhei para lá e vi um rapaz magrinho e feiinho… Na verdade, e desculpe a sinceridade, ele tinha uma carantonha que nem o sorriso aberto fazia parecer menos feia! Enfim, a Mãe Natureza não agracia todos… Mas voltando à história! Assim por educação, que fui muito bem-educada pelos meus paizinhos, fui lá ter com o rapaz para agradecer a gentileza. E mal o fiz nem dei tempo para ai nem ui, fui logo a correr para fora da loja!

E é esta a minha reclamação, Senhor (ou Menino?) Cupido! Estou a tentar ser condescendente com o facto de ser um bebé e ainda por cima velho. Combinação traiçoeira, essa de bebé velho! Mas seria de esperar que os anos de experiência o fizessem mais certeiro. Mas não! Parece que anda para aí a mandar setas a torto e a direito e depois gostamos de quem não gosta de nós e quem gosta de nós, paciência, nós não gostamos dele! E andamos aqui todos às turras só porque anda para aí com faltas de pontaria. Já pensou que pode ser um problema de visão? Ir a uma consulta talvez ajudasse! É que eu já falei com amigas minhas e todas elas se queixaram do mesmo. Note que eu estou a tentar ser condescendente e não o quero acusar de estar a fazer mal o seu trabalho. Mas já pensou que pode de facto estar a acontecer um erro qualquer? É que não é normal, Menino (ou Senhor?) Cupido!

Veja lá isso então, se faz favor, que aqui em baixo a coisa só anda certa para uns poucos. Ai, até homens com homens e mulheres com mulheres, valha-me Deus e Nossa Senhora, que agora até me benzi! E senhores idosos com moças da minha idade, isso até é pecado! Isso porque nem falo na sem vergonhice que é mulheres da idade da minha mãezinha, que Deus a tenha, com rapazinhos novos. Veja lá, veja lá o quê se passa! Espero que esta minha carta tenha vindo chamar-lhe a atenção. Desculpe qualquer coisinha, a intenção foi a melhor!
Aguardo melhorias com ansiedade!

Os melhores cumprimentos,
Josefina

PS – E faça o jeitinho, já agora, de acertar com a seta no Teodoro Bonifácio, que é o rapaz mais bonito e mais rico aqui das redondezas!

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Grito

A maior asneira que alguém pode fazer na vida é submeter-se.
Submetemo-nos a regras. Censuramos os nossos pensamentos, bloqueamos os nossos desejos, proibimo-nos de sonhar com coisas que nos dizem que são absurdas.

Não suporto as regras: não uses o melhor vestido para ir ao supermercado, não compres esses sapatos de salto vertiginoso que só vais calçar uma vez, não mandes uma piada ao estranho que passa só porque o momento te pareceu oporturno… E é assim que, com pequenas coisas que não faziam mal a ninguém, nos prendemos nas nossas próprias celas, que nos resignamos a um exílio que está bem longe das nossas vontades.

Eu quero dançar quando mais ninguém dança, dizer “Eu amo-te” ao fim de uma semana porque o momento parece perfeito, fazer tostas de atum de madrugada e beber champanhe sem ser a festa de ninguém. Comprar uma flor quando estou triste, dizer bom dia ao Sol, entrar no mar à noite, sair de casa às duas da manhã para voltar na madrugada seguinte, ir ao cinema sozinha, perguntar a quem conheço mal se ainda há lugar para mim…

Sair para a rua quando a chuva cai pode deixar-me doente. Mas isso é depois, não é agora! Agora quero a água a escorrer-me pelo rosto como que se me lavasse a alma! A levar as censuras, os bloqueamentos e as proibições. E não há mais nada que eu deseje fazer nesse momento…

Mas quem segue o impulso é rotulado de louco, de libertino de inconvencional… Pois eu digo; se simplicidade é ser louca, então é disso que quero que me chamem! Não me importo de ser excessiva, imprudente ou alienada, desde que isso me faça feliz.

Para mim os verdadeiros loucos são aqueles que vivem condenados à miséria de fazer aquilo que os outros julgam estar correcto. São os dementes que reprimem as emoções em nome de algo que nem sabem o que é! Os cegos que desistem dos sentimentos em prol de leis ditadas por alguém que se lembrou de que a frieza é uma característica positiva…

No fim, o certo não se distingue do errado… A mim basta-me o respeito como obrigatoriedade. Para mim e para os outros. Estou cansada de jogar um jogo com regras que não consigo perceber.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Cá dentro V

- Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Se…
- O que estás a fazer? - Interrompeu.
- SHIU! Sete. Oito. Nove. Dez. On…
- Estás a contar o quê?
- …ze. Doze. Treze. Cator…
- Hey! Coração, estou a falar contigo!
- Irra!! Não estás a ver que estou a contar?
- Sim, isso já eu percebi… Mas a contar o quê? Não vejo nada para contar.
- Estou contar, apenas. – Respondeu em tom amuado.
- Não me vais dizer o que é?
O outro suspirou fundo.
- OK… É para me controlar.
- Controlar?
- Sim; controlar, acalmar, abrandar, não sabes o que é?
- Calma, Coração! Então… Mas o que é que te enerva?
- Não sei… Tenho um aperto! É como se me estivessem a … A magoar! A pisar! A..a..
- A partir aos bocadinhos?
-Sim, isso! A partir aos bocadinhos…
-Ó rapaz, tu já sentiste isso outras vezes. Já sabes que andas aí murcho um tempinho, muito pequenino, mas acaba por passar.
-Estás a ver? Desvalorizas sempre! Sabia que não valia a pena falar contigo… - Disse ele, muito irritado.
- Pronto, pronto! Desabafa lá comigo – respondeu em tom ameno – Ai, os dramas deste tipo!
- O que é que estás para aí a murmurar?
- Nada, nada! Anda, diz-me tudo o que vai aí dentro?
- É que… Não é só estar partido, sabes? É também – e baixou a voz de repente – esta mania que o estômago agora apanhou?
- O estômago??
- SHIU! – Repreendeu, ele – fala baixinho se não ouve!
- Mas explica lá isso! – Pediu a Razão, em surdina.
- É que ele agora resolveu dar uns saltos que me tiram o ar cá em cima… É uma coisa aflitiva! Ainda não lhe quis dizer nada, porque pode ser refluxo, ou assim, e sabes como eu sou, tenho pavio curto mas sou muito sensível aos problemas dos outros!
- Mas ele salta?
- Salta, salta! Dá pulos enormes, que me fazem saltar também. E eu fico sem ar, fico apertadinho aqui na caixa torácica! Credo, ele tem ali tanto espaço e anda para aqui a invadir o meu! Olha, parece que engoliu borboletas!
- Borboletas?
- Sim! E elas andam para ali a esvoaçar.
- Olha lá… E isso acontece quando? É sempre?
-Sempre? Se fosse sempre já nem me aguentava! É assim, quando “ela” está com pessoas. Mas também acontece quando “ela” está sozinha. Triste tem acontecido muitas vezes, também. Mas às vezes acontece e “ela” fica muito alegre!
- Mau! Assim não entendo nada! O que estás a dizer não faz sentido nenhum!
- Mas não é o teu trabalho, dares sentido às coisas? – Respondeu ele, num tom cheio de ironia.
- Pronto, está bem. Aceito o desafio! Dizes que é quando tem gente à volta… Muita gente?
- Depende. Às vezes sim, às vezes não…
- Alguém em especial?
- Não sei, não tenho olhos! Só sinto!
- Hmm… É que eu tenho um palpite…
- Um palpite? E esse tom preocupado é o quê? É uma doença? Não me digas que é uma doença! Tenho de ir ao cardiologista?
- Sim… É uma doença. A maior que podias ter – disse em tom grave. – É paixão.
- Paixão?
- Sim, paixão.
- Desculpa lá, Razão, mas já estive apaixonado e nunca tive estes espasmos de aflição! É verdade que tenho tido momentos bons, mas é sempre tudo muito extremo! Ora êxtase, ora desespero. Alegria e profunda tristeza! Ora sonho, ora pesadelo!
- Sim, é paixão. Mas uma muito especial.
- Especial?
- É assim, Coração: vou ser muito honesto. Isso é uma paixão não correspondida. E para além disso, também é proibida.
- Proibida? Proibida por quem?
- Por mim.
-Han?
- Sim…Eu estava a ver se não percebias, ma…
- Então era tudo bluff? – Gritou enraivecido.
-Tem calma. Tem calma ou ainda explodes!
-Explica-te de uma vez!!!
- Coração… Eu sei que às vezes não nos damos bem e que tu não concordas com muitos dos meus métodos. Mas a verdade é que, se às vezes pareço a tua maior inimiga, a verdade, dizia eu, é que não tens melhor amiga do que eu. Eu sou responsável por criar mecanismos de protecção. Uma espécie de bloqueadores que te fazem ver aquilo que é errado. E tu nem dás conta… O problema é que desta vez deste.
-Mecanismos? O quê? Andas a controlar-me?
-Não punha as coisas nesses termos… Ando a orientar-te. É para isso que eu sirvo! Mas desta vez parece que não correu bem… Não fiques amuado! Tu sabes que é para o teu bem, não sabes? Que eu tenho de te proteger dessas coisas más que existem para aí e que te afectam tanto! – Disse ela em tom meigo.
- Ó Razão!! – Respondeu ele, choroso – Isto passa, Razão? Estou tão desorientado, tão cansado dos altos e baixos!
- Olha, Coração… Passa. Claro que passa. Mas deixa-me ajudar-te. Ouve os meus conselhos e tem calma. Eu sei que é difícil, mas não podes andar para aí disparado. Não nesta situação!
- Mas… Porquê?
- Esta não é uma paixão como as outras. É uma paixão desperdiçada em alguém que não merece. É um gasto de energia. É “ela” saber que não deve, porque eu lhe digo, e “ela” querer, porque tu aceleras. Portanto, ouve os meus conselhos e tenta relaxar. Vais ver que no fim te sentes melhor.
- E demora?
- Se demora? Meu amor, isto do tempo é muito relativo. Agora vai demorar horrores. Depois… Depois vai ser um ponto minúsculo no meio de muitos outros. E se vier uma paixão certa, então… Ui, aí vai ser num instante!
- E por enquanto, faço o quê?
- Conta, Coração, conta! Principalmente quando estiveres a acelerar…