No outro dia estava a descascar cebolas. Não é uma coisa que faça muito bem: tenho pouco jeito para a faca, sou demasiado lenta e choro que me farto. Se bem que para isso não é preciso descascar cebolas… Enfim, estava a descascá-las por obrigação, não por livre e espontânea vontade! E enquanto os meus olhos ardiam, perguntava a mim mesma qual a razão para tanta choradeira. Sim, porque a história de serem as ligações de enxofre a desfazerem-se que provocam vapores irritantes, não me convence! A cebola tem de ter uma qualquer história triste, pensei eu na altura. E depois nunca mais me lembrei. É daquelas parvoíces que nos passam pela cabeça e que são logo mandadas para o balde da reciclagem!
Mas hoje voltei a pensar nisso. Talvez por falta de sono misturada com pouca paciência para fazer o amontoado de coisas em lista de espera.
A cebola é… uma coisa complicada. Não sei como lhe chamar, portanto fico-me pela coisa. Ela era pequena, fresca e doce. Tenra, brilhante e simples. Foi crescendo. Quando crescemos quer dizer que o tempo passa por nós e quando o tempo passa por nós quer dizer que passamos por mais coisas. E quando passamos por mais coisas vamos ficando amargos, duros e cinzentos. Foi o que aconteceu à cebola. Passou por muito! Provavelmente alguém lhe mentiu. Ou então foi ela que mentiu a si própria. Também pode ter sido um afastamento de algo querido. Uma má avaliação dos acontecimentos à sua volta… Pode ter sido um, talvez até mais que um, desgosto de amor. Porque qualquer um se apaixona, até a cebola. Ou pelo menos aquilo que ela era antes de o ser…
Sofreu, chorou. Magoou-se, escondeu-se. Voltou a sofrer, fingiu. Magoaram-na outra vez, aguentou. E pelo meio foi se revestindo de carapaças duras, protecções invisíveis mas de eficácia real. Camadas.
E para a despir desses escudos com os quais se armou, é preciso bem mais do que paciência. Meiguice ao rodar nos dedos. Cuidado ao deslizar a faca. E a dita paciência, também.
Ela só faz chorar porque pouco do que é bom se conquista sem esforço. O problema é que temos tendência em não ir até ao fundo, ao coração, que fica no fim de todas as camadas… Acho eu! A verdade é que nunca lá cheguei. Talvez porque, a mim, ainda ninguém mas quis mesmo tirar. E a explicação mais simples deve ter a ver com o facto de eu não ser uma cebola. Ou isso, ou este texto é sobre pessoas.
4 coisas que me disseram:
adorei :)
Este blog foi adicionado à minha lista de favoritas no meu blogue, http://concretamente.blogs.sapo.pt, continua a escrever assim, parabens pelo blogue.
Ola Irina, tou com vontade de ler outro post teu. ;)
ainda nas camadas? :)
Enviar um comentário